Infidelidade conjugal no varejo

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Estou de mal com o meu creme de barbear.

Não com ele propriamente, mas com a mãe dele, a marca.Não suporto vê-los nesta semana.Tirei-os do mármore, no meu banheiro.

Foram para a segunda gaveta, local úmido e escuro e, para torturá-los um pouco mais, ainda coloquei um concorrente ao seu lado.

Sinto-me traído nesse casamento que já durava quase dez anos.

Tudo começou no domingo passado, quando um amigo veio me mostrar o “folder” que havia recebido. Na peça, estava a nova linha de cosméticos masculinos da “minha” marca.

“Você também faz parte do Programa Cliente Amigo?”, perguntei a ele.“Não. Recebi um encarte na revista que assino”. Jogou o folheto no sofá e saiu em busca de um domingo melhor.

Fiquei olhando a peça, angustiado pela infidelidade conjugal da marca. Que ingratidão para comigo.

Como é que o marido sabe das novidades da esposa? Através do vizinho?

Por que, — após anos de uma relação em que respondi a ofertas, promoções, cadastros, questionários que esmiuçaram minha vida íntima — fui o último a saber da chegada de um novo filho?

Percebo que o fenômeno é geral e atinge a grande maioria das empresas varejistas que sempre exibem uma “fertilidade promocional” incrível para conquistar novos clientes, ao mesmo tempo em que demonstram uma inibição relacional maior ainda para não cuidar dos atuais.

Somos promocionais por natureza. Ávidos pela conquista de novos clientes, adotamos promoções e mídias de massa que são ferramentas perfeitas para a captura de novos consumidores, mas dispensam o mesmo tratamento ao “freguês” mais maduro e fiel.

Por que será que investimos tanto na formatação de cadastros se, no momento de se desenhar o planejamento da comunicação, adotamos encartes ou compramos mailings?

Reconheço a importância de se buscar novos clientes através de novas mídias, veículos e promoções. Mas defendo aqui a “maternidade responsável” para as marcas e a devida consciência de que cuidar dos clientes atuais é fundamental e mais rentável que a conquista de novos clientes.

Em protesto, estou há três dias sem me barbear. Alguma nova marca quer cuidar de mim?

Fernando Adas é publicitário e atua na área de Comunicação Dirigida. Como consultor, já desenvolveu projetos de Relacionamento com Clientes junto a empresas como Expand, Fnac e outras empresas do varejo. Como executivo, atuou em empresas como Pernambucanas, Marisa e Claro Digital. Há quatro anos, atua na FM – The Fine Marketing – http://www.fmarketing.com.br desenvolvendo ações de Pesquisa, Atualização Cadastral, RSVP e Vendas Diretas.

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10 Responses to “Infidelidade conjugal no varejo”


  1. 1 Henrique Santos Almeida novembro 1, 2007 às 1:18 pm

    É muito comum este tipo de atitude do departamento de marketing. É preciso desenvolvermos estratégias com clientes que já conhecem nossa marca e já está fidelizado. Para, em um segundo momento sairmos em busca de novos mailings.

  2. 2 Viviane Kebs novembro 1, 2007 às 1:21 pm

    Ótimo artigo, parabéns!

  3. 3 Ricardo Pucinelli novembro 1, 2007 às 4:23 pm

    Acredito que não apenas a infedelidade ao consumidor está tomando margem no marketing desenfreado que vem acelerando as nossas vidas para o consumo cada vez mais voraz, mas está surgindo um movimento no qual as empresas querem reduzir gastos, proporcinando também o descaso com o preparo dos produtos, as precausões com a saúde do consumidor e, principalmente, com o bem-estar do consumidor. Esses itens não podem ser deixados de lado, porque as empresas estão se esquecendo de que, sem consumidor não há retorno financeiro, e sem retorno financeiro, as empresas deixam de existir para dar lugar ao caos!

  4. 4 Giovanna Zuchini novembro 1, 2007 às 5:05 pm

    Adorei !!!!! Esse tipo de ação é muito comum na busca de novos clientes, as empresas só pessam e adquirir mais e mais clientes, o lema é quantidade e não qualidade. Fidelizamos uma marca e muitas vezes, se não achamos o produto em um ponto de venda procuramos em outro… e mais outro …e assim por diante e nem nos damos ao luxo de comprar um produto do concorrente ao menos para esperimentar é uma pena que poucas empresas tem o cuidado de “mimar” seus antigos e atuais consumidores.

  5. 5 Beatriz Durante novembro 1, 2007 às 5:09 pm

    Adorei a matéria seria ótimo se pudessemos colocar nossos maridos e sua mães, “para a segunda gaveta, local úmido e escuro e, para torturá-los um pouco mais, ainda coloquei um concorrente ao seu lado” . Ótimo !!!! Parabéns ao Fernando Adas por esse artigo tão inteligente e bem humorado.

  6. 6 Miriam E Montagna novembro 1, 2007 às 6:52 pm

    Sua colocação foi perfeita, com o bom humor que lhe é peculiar. Está certo que as empresas devem ir atrás dos “dois passarinhos voando”, mas, por favor, elas precisam alimentar o que está na mão!!!!
    Parabéns Fe!

  7. 7 Elizeu Lemes Barros novembro 1, 2007 às 7:27 pm

    O varejo a cada dia se transforma e é muito importante manter os clientes mais rentáveis. Parabéns, pelo artigo. Um texto muito tranquilo de ler e que transmite uma excelente informação.

  8. 8 Cassiano novembro 5, 2007 às 3:46 pm

    Ótimo artigo…Parabéns!

  9. 9 Rafael Figueredo novembro 6, 2007 às 6:03 pm

    Com toda essa “fertilidade promocional”, quem nunca se sentiu traído? O mercado vê seu público consumidor apenas como uma massa, sem dar a devida importância a sua percepção sobre produto, serviço ou marca.

    Todos querem ser agressivos e impactantes, sem perceber que podem acabar virando apenas mais um BBB.
    Eu, particularmente, prefiro “De Frente com Gaby”. Rs…

    Fernando, o texto é espetacular.

  10. 10 Teka novembro 8, 2007 às 5:10 pm

    “Pecadinhos” todos cometemos, empresas e pessoas. ( alguns impetram “pecadões” a bem da verdade).

    Mas a blasfêmia acontece, na hora de corrigir o erro.

    Já imaginou se além do S.A.C., tivéssemos o S.A.N ( Serviço de Atendimento ao Namorado /a ) ou o S.A.A.( Serviço de Atendimento ao Amigo/a ) ?

    Seriamos inundados por gravações /menus labirínticos e respostas eletrônicas padrão.

    Será que um Ombudsman resolveria a situação , ou , em um momento de ira , ligaríamos para o PRONAM ?

    Pois é , Fernando. Tem muita empresa ( destaque para as Prestadoras de Serviço), errando feio no Atendimento e pior ainda, no pós Venda.

    Atenção , Cortesia e Respeito deveriam nortear todas as relações de troca , sejam comerciais , sejam pessoais.

    Agora, quando isso não acontece, a “gaveta abre” e a fila anda, não é mesmo ?

    Beijos .

    Parabéns pelo artigo.

    Teka.


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